segunda-feira, 30 de março de 2020

"Eu vejo um novo começo de era..." Nossas relações com o meio e lições que podemos aprender com a pandemia de Covid-19

Por Antonio Macedo Filho
LEED AP / WELL AP / DGNB Consultant

Março 2020

É hora de repensar, de revalorizar as coisas.
Toda crise gera oportunidades. Estamos diante de uma enorme janela de oportunidades. 
Quando esta crise de pandemia viral passar, será que precisamos mesmo voltar a ser exatamente como éramos?
Tanto no campo das relações humanas e sociais, quanto nas nossas relações com o meio em que vivemos, há muitas lições a serem aprendidas.
Compartilho aqui algumas das que já podemos antecipar, no que se refere às nossas relações com o meio:

1 - Temos que deixar a Terra se curar

Os céus estão limpos!
Os paulistanos, que normalmente não veem as estrelas no céu, porque o ar geralmente poluído da cidade não permite, agora podem admirar o firmamento de casa.
O rio Tietê, assim como os canais de Veneza, está mais limpo.
Poluição sonora também já não há.
São Paulo não é mais a mesma, assim como também não são as demais principais cidades do mundo.

Céu de São Paulo limpo, em março de 2020
Impacto ainda maior, de escala global, já se está sentindo com relação à dramática redução das emissões de CO2 para a atmosfera, como resultado da redução da queima de carvão e derivados de petróleo, nas últimas semanas. 

O mesmo foi verificado para as emissões de NO2, dióxido de nitrogênio, e CO, monóxido de carbono, gases extremamente nocivos, emitidos por veículos a combustão, responsáveis por dezenas de milhares de mortes todos os anos, globalmente, cujas reduções foram ainda maiores nas últimas semanas, em especial na China, mas também na Itália e outras regiões da Europa onde o regime de quarentena geral foi implementado.

Especialistas já apontam para a real possibilidade, mesmo após a retomada do funcionamento normal da sociedade, que deve ocorrer no segundo semestre, de que o mundo consiga em 2020, pela primeira vez, alcançar a meta de redução das emissões em 7,6%, ao longo de um ano, prevista pelo Acordo de Paris de 2015, que propõe metas de reduções ambiciosas para buscar conter os efeitos do aquecimento global.

O mês de janeiro de 2020 já tinha sido registrado como o mais quente da história, na média global, e o mês de fevereiro de 2020, o segundo mais quente da história, segundo a NOAA – Agência Estadunidense para os Oceanos e Atmosfera. Março 2020 não apenas inverterá esta tendência, como são esperadas temperaturas mais amenas, com as menores médias históricas dos últimos anos para o mês. 

Ou seja, involuntariamente, estamos efetivamente colaborando para a diminuição dos efeitos nocivos do aquecimento global do planeta.

2 - A forma como nos movemos nas cidades importa

Todos os anos, mais 1,5 milhão de pessoas morrem em acidentes de trânsito em todo o mundo, segundo a OMS. O Brasil, com mais de 35 mil mortes por ano, é 5º no mundo número de mortes no trânsito. Em se considerando apenas os casos de mortes de motociclistas, o país passa a 2º no mundo, tendo a cidade de São Paulo como líder mundial em número de motociclistas mortos todos os anos em suas ruas.

Estes índices, por força da quarentena à qual estamos submetidos, já caíram abruptamente em todo o país e não gostaríamos que eles retornassem aos níveis anteriores, inclusive por que o contingente de acidentados no trânsito (número muito maior do que de mortos) ocupa boa parte das redes públicas e privadas de saúde, que poderá ser dirigida para atender a outros pacientes, inclusive aqueles com a Covid-19. A relação é direta: menos trânsito, menos poluição, menos mortes.

De posse destas informações (emissões de CO2 e NO2 e mortes no trânsito), se somarmos o fato de que muita gente passou a trabalhar em home office (empresas inteiras, em todo o mundo), me parece claro que o nosso modo de vida anterior não deve mais ser retomado.

3 - Cidades Inteligentes e Sustentáveis são melhores

Temos que garantir serviços de transporte público de qualidade e desestimular o uso do automóvel como meio de transporte preponderante. Pequenos deslocamentos a pé no próprio bairro ou via transporte público ou serviços compartilhados de transportes para outras partes, além de mais recomendáveis para a saúde do indivíduo e da comunidade, são também para a saúde do planeta, na medida em que colabora de forma eficaz para a redução das emissões de CO2, como estamos vendo ocorrer na prática nestas últimas semanas.

Está provado que cidades mais adensadas, com boa oferta de comércio e serviços, boa infraestrutura de transporte públicos, com segurança e espaços públicos de qualidade, são mais agradáveis, mais humanas, mais sustentáveis e provocam menores impactos ao meio do que outras de foram planejadas prevendo o uso intensivo do automóvel.

Como ilustração do conceito, um trabalho realizado pelo WRI com o Banco Mundial apresenta uma interessante comparação entre os casos de Barcelona e Atlanta. Ambas têm número de habitantes semelhantes, mas densidades e modos de transporte predominantes muito diferentes. A maioria dos moradores de Atlanta usa carros particulares, enquanto os de Barcelona usam principalmente o transporte coletivo e caminham. Parte do resultado é que Atlanta tem 18 vezes mais mortes de trânsito em média, do que Barcelona, todos os anos.


4 - Construções Sustentáveis e Saudáveis são necessárias

Escritório central da Hyatt Hotéis, em Chicago, cujos 11
andares são certificados LEED Platinum e WELL Gold.
Foto: Visita técnica realizada durante a Missão Técnica
GreenBuild Chicago 2018, organizada pela EcoBuilding
Consultoria e ArqTours . 
Passamos a maior parte das nossas vidas (90% do tempo) em ambientes construídos. Os espaços onde moramos, trabalhamos, estudamos, nos divertimos e socializamos impactam de maneira profunda a nossa saúde, bem estar e qualidade de vida.
Nossas edificações precisam estar capacitadas para atuar, ativa e positivamente, na promoção da saúde e qualidade de vida dos seus ocupantes e comunidades onde se encontrem.

Sede da Delos, empresa que liderou as pesquisas 
que levaram ao desenvolvimento da certificação 
WELL Building Standard para empreendimentos saudáveis.
O empreendimento é certificado LEED e WELL Platinum.
Fotos: Visitas técnicas realizadas durante Missão Técnica 
WELL Experience Tour Nova York, promovida pela 
EcoBuilding Consultoria e ArqTours, em Novembro 2018.
Os chamados “Empreendimentos Saudáveis” (que vão além das questões já bem conhecidas da sustentabilidade, que se baseiam nos pilares econômico, ambiental e social), trazem as pessoas para centro das tomadas de decisão no projeto, construção e operação dos espaços construídos, com o objetivo de criar ambientes mais salubres, agradáveis e confortáveis para as pessoas, para viverem com saúde e mais qualidade de vida.

Empreendimentos sustentáveis e saudáveis devem ser o novo “normal”. Políticas, normas, certifcações e programas de incentivo que promovam ações neste sentido, devem ser desenvolvidos, implementados e estimulados.

5 - É hora de repensar

Estamos diante de uma oportunidade, inédita e valiosa, de repensarmos o nosso modo de vida, nossos hábitos, a forma como vivemos em sociedade, e como nossas sociedades se relacionam entre si, globalmente.

Temos oportunidade, aprendendo com lições como estas, de recomeçarmos, de uma nova forma, mais humana, mais leve, mais sustentável e mais saudável.

Estamos, quero crer, no começo de uma nova era.

E nós, profissionais do design, arquitetura, urbanismo, construção e operação de edifícios, temos o importante papel, do qual não devemos e não iremos escapar, de criar um mundo melhor para as futuras gerações.

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