quarta-feira, 3 de novembro de 2021

A VEZ DAS PESSOAS – WELL OU FITWEL?

Reproduzo aqui artigo que escrevi para a Inovatech Engenharia, a respeito das certificações WELL e Fitwel (spolier: apesar dos nomes parecidos, são bem diferentes!). 

O artigo foi publicado originalmente em: https://inovatechengenharia.com.br/certificacoes/well-ou-fitwel/

Certificações de bem-estar - WELL ou Fitwel (LEED & WELL Platinum) Visita Técnica - WELL Experience Tour EcoBuilding - Nova York – Novembro 2018 - Foto de Antonio Macedo Filho

A vez das pessoas – WELL ou Fitwel?

 15/12/2020

Neste artigo, Antonio Macedo Filho, nosso especialista e WELL AP, analisa e apresenta um resumo a respeito das principais características das duas principais certificações internacionais de bem-estar para empreendimentos, o Well Building Standard (WELL) e o Fitwel, sistemas que têm sido largamente utilizados por organizações de todo o mundo para identificar empreendimentos que promovem a saúde e o bem-estar das pessoas. Confira!

Certificações Ambientais, quais os benefícios?

Certificações ambientais de empreendimentos (ou selos verdes) são instrumentos, normalmente voluntários, para parametrização, mensuração, aferição, validação e reconhecimento da adoção de estratégias que, uma vez implementadas e verificadas, dão razão à emissão de certificados emitidos por organismos certificadores de credibilidade normalmente internacional.

Proprietários, investidores, poder público, usuários e gestores de empreendimentos certificados têm, com as certificações, comprovação de que se trata, de fato, de empreendimentos de mais qualidade, dispondo de indicadores claros quanto às estratégias implementadas, seus níveis de desempenho e benefícios proporcionados.

Sobre as Certificações de Bem-estar

 

Recentemente, novas certificações têm surgido, no intuito de favorecer e garantir a qualidade dos espaços construídos, bem como a saúde e bem-estar dos seus ocupantes, respondendo às demandas de um mercado competitivo e à tendência global de valorização das pessoas como foco central das tomadas de decisão, o chamado “Movimento Wellness

O conceito base é bastante simples e óbvio: Passamos a maior das nossas vidas em ambientes construídos (mais de 90% do tempo) e estes ambientes e as condições que nos oferecem impactam, de forma substancial e de diversas maneiras, a nossa saúde, nosso bem-estar e qualidade de vida. De fato, segundo a OMS, fatores ambientais e sociais, somados a fatores comportamentais, impactam significativamente mais em nossa saúde e bem estar do que fatores genéticos ou cuidados médicos.

O assunto ganhou ainda maior relevância em 2020, uma vez que passou a ser mais claramente percebido pelo público geral e empresas de todos os setores estão buscando adotar programas para oferecer garantias às pessoas quanto à qualidade dos seus espaços, em um contexto de pandemia viral de escala inédita.

Semelhanças entre WELL e Fitwel

A certificação WELL (WELL Building Standard™) foi desenvolvida a partir de pesquisas científicas lideradas por iniciativa da Delos, com o envolvimento de centros de pesquisas médicas nos EUA e iniciadas em 2007, que levaram ao lançamento do selo em 2014 pelo IWBI – International Well Building Institute, organismo responsável pela administração do sistema de classificação, que tem sede em Nova York. É o primeiro selo do mundo para empreendimentos saudáveis. 

GBCI – Green Business Certification Inc é o agente independente responsável por realizar as verificações e atestar a conformidade com os requisitos do WELL. O GBCI também atua como organismo de certificação para outros programas de sustentabilidade, como LEED, IFC Edge, SITES, PEER e outros.

O sistema Fitwel foi criado também nos EUA em 2017, a partir de uma iniciativa conjunta do Center for Disease Control, e a US General Services Administration (responsável por administrar o patrimônio imobiliário do governo) e o Center for Active Design (organização sem fins lucrativos também com sede em Nova York) é o órgão que gerencia os processos de certificação.

Portanto, ambos os sistemas têm semelhanças em aplicabilidade e estrutura: Ambos são sistemas que visam promover a saúde e o bem-estar das pessoas nos ambientes, são usados internacionalmente, podem ser aplicados a diferentes tipologias de edifícios, incluindo escritórios e residenciais, para edifícios inteiros ou interiores. Ambos os programas têm três níveis de certificação (Silver, Gold e Platinum para WELL e 1, 2 ou 3 estrelas para Fitwel) e preveem recertificação periódica, em um ciclo de três anos.

Por que escolher um ou outro? Conheça as diferenças

Mas, embora existam semelhanças há também diferenças bastante significativas. Entender essas diferenças pode ajudar os proprietários a determinar qual programa é mais apropriado para cada ativo.

Concepção dos sistemas

O sistema WELL foi concebido por um conjunto de especialistas das áreas de pesquisas científicas médicas e do setor da construção e mercado imobiliário para promover a concepção, o desenvolvimento, o uso e a operação de empreendimentos que, por meio de um conjunto de indicadores claros, promovam a saúde, o conforto, o bem estar e a qualidade de vida das pessoas nos ambientes construídos, não apenas nos espaços de trabalho.

O sistema valoriza o projeto destes espaços, por meio de ampla integração multidisciplinar, tratando tanto de aspectos físicos como também psicológicos e comportamentais, de gestão de pessoas, políticas de operação e manutenção, dentre outros.

Já o sistema Fitwel foi criado por iniciativa de um órgão de gestão imobiliária para atender à demanda por mais qualidade em espaços existentes. Foi pensado para propor soluções e medidas relativamente simples, que possam ser implementadas facilmente, sem grandes reformas ou alterações nestes espaços, nem grandes investimentos, portanto, e que possam ser documentadas de maneira também simplificada, pelos próprios proprietários, sem necessidade de envolver muitas disciplinas ou profissionais especializados. Foi concebido para ser simples e fácil.

Esta diferença fundamental na forma como foram concebidos os sistemas dá origem a outras diferenças também importantes, a saber:

Abrangência da abordagem

O sistema WELL aborda os temas da saúde e bem-estar de diferentes formas. São 10 categorias em sua mais recente versão, a v.2 (7 na v.1) e em cada uma delas há pré-condições (itens obrigatórios) e otimizações (facultativas) que somam mais de 100 itens aplicáveis, a partir dos quais se afere o nível de desempenho dos ambientes. São elas:

  • Ar
  • Água
  • Nutrição
  • Luz
  • Movimento
  • Conforto Térmico
  • Som
  • Materiais
  • Mente
  • Comunidade
Certificação WELL – Itens obrigatórios, retirado do site do Sistema WELL

Categorias da certificação WELL, com seus itens obrigatórios e facultativos

Já o Fitwel apresenta 63 estratégias (nenhum item obrigatório) para serem consideradas para atender aos objetivos agrupados nas seguintes áreas:

  • Impactos de saúde na comunidade
  • Redução da morbidade e abstenismo
  • Equidade social para grupos vulneráveis
  • Instituição do bem-estar
  • Prover opções de alimentação saudável
  • Promover a segurança dos ocupantes
  • Aumentar a atividade física
fitwel - itens da certificação
Categorias da certificação Fitwel – retirado do site da certificação Fitwel

Categorias da certificação Fitwel, com seus itens obrigatórios e facultativos

Complexidade e facilidade de uso

O atendimento aos requisitos WELL requer a comprovação por meio de evidências claras, com o envio de documentos comprobatórios emitidos por diferentes agentes envolvidos no processo, à semelhança dos processos LEED. Já o Fitwel foi projetado para ser simples de implementar e também de documentar. O volume de documentos a serem enviados, inclusive porque a quantidade de assuntos abordados no Fitwel é menor que no WELL, é, portanto, também bem menor e, em muitos casos, são aceitas autodeclarações, sem necessidade de medições in loco.

Além disso, o Fitwel não possui pré-requisitos. Ou seja, não há itens obrigatórios. Dessa forma, tudo é opcional. Isso permite, por um lado, grande flexibilidade para os usuários do Fitwel escolherem a combinação de estratégias que melhor se aplica a seus projetos. Por outro lado, os requisitos simples e as baixas barreiras à entrada fizeram com que o Fitwel fosse considerado “pouco exigente” ou “muito fácil” para algumas propriedades. Em certos casos, quase nada precisava ser feito além do que já se tinha implementado, para se atingir a certificação (além de pagar as taxas do processo).

Medições e verificações

O programa WELL requer que medições de desempenho e verificação da qualidade dos espaços seja realizada por meio de visita presencial ao empreendimento a ser certificado de um avaliador WELL aprovado. Este profissional realiza uma inspeção visual das características de saúde do edifício, verifica a documentação fornecida no aplicativo e conclui o teste de desempenho direcionado para itens específicos, como acústica, por exemplo. Esta etapa de validação no local fornece aos proprietários de ativos uma garantia adicional de que resultados confiáveis estão de fato sendo alcançados. 

O programa Fitwel não faz qualquer exigência de verificação no local (sequer aborda a questão do desempenho acústico, por exemplo).

Aplicação para portfólios de edifícios existentes e novos

Ambos os programas pretendem trabalhar tanto para novos projetos de construção quanto para edifícios existentes. No entanto, as estratégias propostas pelo Fitwel são escaláveis e replicáveis em um portfólio de construção existente de forma bem mais simples que as estratégias do WELL. Por ser mais fácil de ser implementado em edifícios existentes, o Fitwel oferece maiores oportunidades de aplicação por gestores prediais e gerentes de instalações, que podem com suas próprias equipes internas conduzir os processos.

Por outro lado, o WELL abre a possibilidade de se atingir excelentes resultados nos casos de projetos de empreendimentos novos ou que sofram significativas reformas e uma opção melhor para organizações que buscam incorporar princípios de saúde e bem-estar de maneira abrangente, consistente e completa, envolvendo diversas áreas da empresa.

Custo

Estas diferenças fundamentais entre os sistemas impactam diretamente em outra também muito relevante: os custos dos processos. O custo total da certificação é em geral significativamente mais alto para a WELL do que para o Fitwel, naturalmente. Ambos os programas avaliam as taxas com base na área do empreendimento, mas as taxas de registro e as taxas de certificação sofrem uma variação maior no caso do WELL do que no Fitwel. 

Os testes de desempenho e medições in loco exigidos para o WELL acarreta custos adicionais que o Fitwel, como não exige medições in loco, não tem. Serviços de consultoria especializada são muitas vezes também requeridos pelos contratantes de processos WELL, o que nem sempre ocorre para processos Fitwel, pois bem mais simples.

Considerações finais

Embora os programas compartilhem muitas semelhanças, WELL e Fitwel adotam abordagens bem diferentes para lidar com a questão da qualidade dos espaços para a promoção da saúde humana.

Por seu nível de exigência, abrangência de abordagem, consistência das informações, meios de validação e investimento de tempo e recursos, tanto no seu desenvolvimento quanto em sua aplicação, o WELL é considerado como “topo de linha” pelo mercado imobiliário de empreendimentos saudáveis. Isto, por outro lado, também o torna inatingível por muitos.

Quanto ao o Fitwel, por sua simplicidade, praticidade e foco em aplicações que tenham visibilidade para as os usuários, tem ganho espaço justamente por ser barato e fácil. Corre também o risco, justamente por isto, de perder em credibilidade e passar a ser considerado como algo de menor valor, que não traz benefício real ou eleva o nível de saúde e bem-estar além da prática comum.

Então, qual programa é melhor para você? A resposta depende de vários fatores que incluem os seus objetivos, o nível de comprometimento da empresa e suas equipes de gestão com o tema da saúde e bem estar das pessoas, o perfil dos ativos específicos e o tamanho do portfólio de produtos, dentre outros.

Por fim, a boa notícia é que agora existem programas de certificação, metodologias e pesquisas de saúde baseadas na ciência, que podem ser aproveitados para melhorar os desempenhos e a qualidade dos espaços construídos para a promoção da saúde e do bem-estar para as pessoas que vivem e trabalham em seus edifícios.

Quadros Comparativos para o WELL e Fitwel

Quadro comparativo entre as áreas de abordagem da certificação WELL e Fitwel
Comparativo entre o WELL e o Fitwel – Aplicações e tipologias
Comparativo entre o WELL e o Fitwel em aspectos gerais

domingo, 24 de maio de 2020

Palestra Custos, Benefícios e Oportunidades da Construção Sustentável

Assistindo a algumas palestras online estes dias, promovidas pela Ademi-Ba, deparei com o vídeo de uma palestra minha, realizada na 8a edição do Fórum de Sustentabilidade daquela entidade, que ocorreu em Salvador, em 2017.

O tema, "Custos, Benefícios e Oportunidades da Construção Sustentável", sobre o qual já tratei em algumas ocasiões, segue oportuno, razão pela qual compartilho aqui o link da palestra:

terça-feira, 12 de maio de 2020

Agora você pode se credenciar um profissional LEED sem sair de casa!

Boa notícia:
O U.S. Green Building Council acaba de anunciar (12/05/20) que os exames LEED Green Associate e LEED Accredited Professional estão agora disponíveis online! Ou seja, você pode se credenciar um profissional LEED sem sair de casa!

Para se preparar adequadamente para o exame, você também pode estudar de casa. Acesse o link que segue e se inscreva no curso preparatório para o exame LEED Green Associate do EcoBuilding Fórum, pioneiro no Brasil, tanto presencialmente, desde 2010, quanto online, desde 2016, com milhares de profissionais já treinados, com DESCONTO DE 50% (promoção por tempo limitado). Solicite cupom de desconto por e-mail: cursos@ecobuildingforum.com.br Mais informações em: https://ecobuildingforum.com.br/como-se-tornar-um-leed-ga/


quarta-feira, 22 de abril de 2020

O Dia da Terra mais estranho da História e a outra curva a ser achatada


Por Antonio Macedo Filho
amacedo@ecobuilding.com.br
Abril 2020

Hoje, quarta-feira, 22 de abril de 2020, é o Dia da Terra!

Este ano se celebra o cinquentenário do surgimento do movimento hoje global, que ocorreu pioneiramente em 22 de abril de 1970, por iniciativa de alguns professores e alunos da Universidade de Michigan, nos EUA.

Estou seguro em afirmar que nem os seus criadores, nem quaisquer outros dos seus participantes poderiam antecipar o cenário no qual estamos vivendo hoje em dia.

Reunião recente de alguns dos fundadores do Dia da Terra na Universidade de Michigan.
Fonte: 
University of Michigan School for the Environment and Sustainability
























Ontem, 21 de abril, uma notícia foi anunciada com relativa banalidade, em meio a tantas outras alarmantes dos últimos dias: O barril de petróleo no mercado internacional estava sendo negociado com cotação negativa!! Isto quer dizer que quem tem petróleo para vender está literalmente pagando para quem quiser levar (US$ 37,00 por barril, exatamente)!

Ou seja, o mais importante e desejado recurso do planeta, responsável por revolucionar o modo de vida de toda a Humanidade, no século 20, agora literalmente não vale nada!!

A Terra pode se curar

E este é só um de muitos indicadores que fazem deste um Dia da Terra de fato especial, pois, pela 1ª vez na História, estamos de fato dando uma chance à Terra!

A inédita e abrupta redução das atividades humanas, em todo o planeta, consequência direta das medidas de controle e prevenção da pandemia da Covid-19, possibilitou que fenômenos antes impensáveis pudessem ocorrer. Estamos vendo a natureza recuperar espaço e efetivamente começar a se curar dos efeitos nocivos da ação humana.

As emissões de CO2 (assim como as de NO2, dióxido de nitrogênio, e CO, monóxido de carbono, gases extremamente nocivos, emitidos por veículos a combustão) despencaram em todo o mundo.

A temperatura média do planeta caiu. O mês de janeiro de 2020 já tinha sido registrado 
como o mais quente da história, na média global, e o mês de fevereiro de 2020, o segundo mais quente da história, segundo a NOAA – Agência Estadunidense para os Oceanos e Atmosfera. Março 2020 não apenas inverterá esta tendência, como são esperadas temperaturas mais amenas, com as menores médias históricas dos últimos anos para o mês.  De fato, o inverno já parece estar chegando mais cedo no hemisfério sul este ano.

A poluição do ar nas grandes metrópoles do planeta praticamente sumiu. Os paulistanos agora podem ver estrelas no céu. Contemplar o horizonte. Poluição sonora também já não há.

Aves, peixes e uma variedade de outras espécies animais estão voltando a aparecer e desfrutar dos rios, mares e lagoas (inclusive a Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro) e também das ruas, parques e praças, em muitas cidades pelo mundo.

As pessoas estão preferindo andar ou pedalar, quando possível, ao invés de usar carros, ônibus ou metrô. Muitos estão cultivando alimentos em casa ou nos condomínios para consumo próprio.

Muitas empresas estão percebendo que é possível funcionar e serem produtivas com espaços de trabalho mais econômicos e eficientes, com equipes trabalhando de diferentes formas, em diferentes lugares, o que impacta em sensíveis reduções dos deslocamentos e dos consumos de energia, de água, materiais e insumos e, portanto também, menores impactos ambientais.

O novo "Normal"

Por estas razões, para citar apenas algumas, quero crer que lições importantes serão aprendidas, a partir desta pandemia, a primeira da era moderna. Não podemos e quero crer que não vamos mais voltar a agir da mesma forma que antes. Um novo "normal" deve ser criado. 

Os negócios, de forma geral, não poderão mais ser conduzidos da mesma forma, com as mesmas diretrizes. O próprio conceito do que é um bom negócio deve mudar. O resultado econômico só será considerado um bom resultado se vier acompanhamento de bons desempenhos ambientais e de valorização do capital humano. Do contrário, não será sustentável. Resultados econômicos, sem respeito ao ambiente e ao fator humano simplesmente não se sustentarão.

Negócios sustentáveis não serão mais uma opção, uma alternativa. Serão, simplesmente, negócios. Ponto.

A curva a ser achatada

Existe uma outra curva, com a qual já lidamos há bem mais tempo, bem mais ampla e de prazo mais longo, da qual não temos como escapar, e que ainda precisa ser bastante achatada, para podermos garantir o desenvolvimento sustentável: A curva da oferta de recursos do planeta versus a nossa demanda por recursos, ao longo no tempo.

Fonte: GreenBiz Group



Estamos provando, na prática, por força de um agente externo, invisível mas poderoso, que é possível diminuirmos bastante as nossas demandas e permitirmos que a Terra se cure. 

A questão que permancece é como encontrar e manter este delicado equilíbrio, de maneira dinâmica e consistente, num ponto em que todos os povos possam ter garantidas saúde, segurança (em todos os sentidos) e qualidade de vida. 

É o que propõe a ONU, por meio dos seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Acordo de Paris, para citar apenas duas das principais iniciativas. 

Estamos diante da oportunidade, inédita e valiosa, de repensarmos o nosso modo de vida, nossos hábitos, a forma como vivemos em sociedade, e como nossas sociedades se relacionam entre si, globalmente.

Estamos presenciando, ao vivo e a cores, páginas importantes da História sendo escritas. Podemos  recomeçar, de uma nova forma, mais humana, mais leve, mais sustentável e mais saudável. Estamos, quero crer, no começo de uma nova era. A Era da Resiliência.

Tratarei mais a respeito, em outros posts futuros. 

Até breve.


segunda-feira, 30 de março de 2020

"Eu vejo um novo começo de era..." Nossas relações com o meio e lições que podemos aprender com a pandemia de Covid-19

Por Antonio Macedo Filho
LEED AP / WELL AP / DGNB Consultant

Março 2020

É hora de repensar, de revalorizar as coisas.
Toda crise gera oportunidades. Estamos diante de uma enorme janela de oportunidades. 
Quando esta crise de pandemia viral passar, será que precisamos mesmo voltar a ser exatamente como éramos?
Tanto no campo das relações humanas e sociais, quanto nas nossas relações com o meio em que vivemos, há muitas lições a serem aprendidas.
Compartilho aqui algumas das que já podemos antecipar, no que se refere às nossas relações com o meio:

1 - Temos que deixar a Terra se curar

Os céus estão limpos!
Os paulistanos, que normalmente não veem as estrelas no céu, porque o ar geralmente poluído da cidade não permite, agora podem admirar o firmamento de casa.
O rio Tietê, assim como os canais de Veneza, está mais limpo.
Poluição sonora também já não há.
São Paulo não é mais a mesma, assim como também não são as demais principais cidades do mundo.

Céu de São Paulo limpo, em março de 2020
Impacto ainda maior, de escala global, já se está sentindo com relação à dramática redução das emissões de CO2 para a atmosfera, como resultado da redução da queima de carvão e derivados de petróleo, nas últimas semanas. 

O mesmo foi verificado para as emissões de NO2, dióxido de nitrogênio, e CO, monóxido de carbono, gases extremamente nocivos, emitidos por veículos a combustão, responsáveis por dezenas de milhares de mortes todos os anos, globalmente, cujas reduções foram ainda maiores nas últimas semanas, em especial na China, mas também na Itália e outras regiões da Europa onde o regime de quarentena geral foi implementado.

Especialistas já apontam para a real possibilidade, mesmo após a retomada do funcionamento normal da sociedade, que deve ocorrer no segundo semestre, de que o mundo consiga em 2020, pela primeira vez, alcançar a meta de redução das emissões em 7,6%, ao longo de um ano, prevista pelo Acordo de Paris de 2015, que propõe metas de reduções ambiciosas para buscar conter os efeitos do aquecimento global.

O mês de janeiro de 2020 já tinha sido registrado como o mais quente da história, na média global, e o mês de fevereiro de 2020, o segundo mais quente da história, segundo a NOAA – Agência Estadunidense para os Oceanos e Atmosfera. Março 2020 não apenas inverterá esta tendência, como são esperadas temperaturas mais amenas, com as menores médias históricas dos últimos anos para o mês. 

Ou seja, involuntariamente, estamos efetivamente colaborando para a diminuição dos efeitos nocivos do aquecimento global do planeta.

2 - A forma como nos movemos nas cidades importa

Todos os anos, mais 1,5 milhão de pessoas morrem em acidentes de trânsito em todo o mundo, segundo a OMS. O Brasil, com mais de 35 mil mortes por ano, é 5º no mundo número de mortes no trânsito. Em se considerando apenas os casos de mortes de motociclistas, o país passa a 2º no mundo, tendo a cidade de São Paulo como líder mundial em número de motociclistas mortos todos os anos em suas ruas.

Estes índices, por força da quarentena à qual estamos submetidos, já caíram abruptamente em todo o país e não gostaríamos que eles retornassem aos níveis anteriores, inclusive por que o contingente de acidentados no trânsito (número muito maior do que de mortos) ocupa boa parte das redes públicas e privadas de saúde, que poderá ser dirigida para atender a outros pacientes, inclusive aqueles com a Covid-19. A relação é direta: menos trânsito, menos poluição, menos mortes.

De posse destas informações (emissões de CO2 e NO2 e mortes no trânsito), se somarmos o fato de que muita gente passou a trabalhar em home office (empresas inteiras, em todo o mundo), me parece claro que o nosso modo de vida anterior não deve mais ser retomado.

3 - Cidades Inteligentes e Sustentáveis são melhores

Temos que garantir serviços de transporte público de qualidade e desestimular o uso do automóvel como meio de transporte preponderante. Pequenos deslocamentos a pé no próprio bairro ou via transporte público ou serviços compartilhados de transportes para outras partes, além de mais recomendáveis para a saúde do indivíduo e da comunidade, são também para a saúde do planeta, na medida em que colabora de forma eficaz para a redução das emissões de CO2, como estamos vendo ocorrer na prática nestas últimas semanas.

Está provado que cidades mais adensadas, com boa oferta de comércio e serviços, boa infraestrutura de transporte públicos, com segurança e espaços públicos de qualidade, são mais agradáveis, mais humanas, mais sustentáveis e provocam menores impactos ao meio do que outras de foram planejadas prevendo o uso intensivo do automóvel.

Como ilustração do conceito, um trabalho realizado pelo WRI com o Banco Mundial apresenta uma interessante comparação entre os casos de Barcelona e Atlanta. Ambas têm número de habitantes semelhantes, mas densidades e modos de transporte predominantes muito diferentes. A maioria dos moradores de Atlanta usa carros particulares, enquanto os de Barcelona usam principalmente o transporte coletivo e caminham. Parte do resultado é que Atlanta tem 18 vezes mais mortes de trânsito em média, do que Barcelona, todos os anos.


4 - Construções Sustentáveis e Saudáveis são necessárias

Escritório central da Hyatt Hotéis, em Chicago, cujos 11
andares são certificados LEED Platinum e WELL Gold.
Foto: Visita técnica realizada durante a Missão Técnica
GreenBuild Chicago 2018, organizada pela EcoBuilding
Consultoria e ArqTours . 
Passamos a maior parte das nossas vidas (90% do tempo) em ambientes construídos. Os espaços onde moramos, trabalhamos, estudamos, nos divertimos e socializamos impactam de maneira profunda a nossa saúde, bem estar e qualidade de vida.
Nossas edificações precisam estar capacitadas para atuar, ativa e positivamente, na promoção da saúde e qualidade de vida dos seus ocupantes e comunidades onde se encontrem.

Sede da Delos, empresa que liderou as pesquisas 
que levaram ao desenvolvimento da certificação 
WELL Building Standard para empreendimentos saudáveis.
O empreendimento é certificado LEED e WELL Platinum.
Fotos: Visitas técnicas realizadas durante Missão Técnica 
WELL Experience Tour Nova York, promovida pela 
EcoBuilding Consultoria e ArqTours, em Novembro 2018.
Os chamados “Empreendimentos Saudáveis” (que vão além das questões já bem conhecidas da sustentabilidade, que se baseiam nos pilares econômico, ambiental e social), trazem as pessoas para centro das tomadas de decisão no projeto, construção e operação dos espaços construídos, com o objetivo de criar ambientes mais salubres, agradáveis e confortáveis para as pessoas, para viverem com saúde e mais qualidade de vida.

Empreendimentos sustentáveis e saudáveis devem ser o novo “normal”. Políticas, normas, certifcações e programas de incentivo que promovam ações neste sentido, devem ser desenvolvidos, implementados e estimulados.

5 - É hora de repensar

Estamos diante de uma oportunidade, inédita e valiosa, de repensarmos o nosso modo de vida, nossos hábitos, a forma como vivemos em sociedade, e como nossas sociedades se relacionam entre si, globalmente.

Temos oportunidade, aprendendo com lições como estas, de recomeçarmos, de uma nova forma, mais humana, mais leve, mais sustentável e mais saudável.

Estamos, quero crer, no começo de uma nova era.

E nós, profissionais do design, arquitetura, urbanismo, construção e operação de edifícios, temos o importante papel, do qual não devemos e não iremos escapar, de criar um mundo melhor para as futuras gerações.