segunda-feira, 30 de março de 2020

"Eu vejo um novo começo de era..." Nossas relações com o meio e lições que podemos aprender com a pandemia de Covid-19

Por Antonio Macedo Filho
LEED AP / WELL AP / DGNB Consultant

Março 2020

É hora de repensar, de revalorizar as coisas.
Toda crise gera oportunidades. Estamos diante de uma enorme janela de oportunidades. 
Quando esta crise de pandemia viral passar, será que precisamos mesmo voltar a ser exatamente como éramos?
Tanto no campo das relações humanas e sociais, quanto nas nossas relações com o meio em que vivemos, há muitas lições a serem aprendidas.
Compartilho aqui algumas das que já podemos antecipar, no que se refere às nossas relações com o meio:

1 - Temos que deixar a Terra se curar

Os céus estão limpos!
Os paulistanos, que normalmente não veem as estrelas no céu, porque o ar geralmente poluído da cidade não permite, agora podem admirar o firmamento de casa.
O rio Tietê, assim como os canais de Veneza, está mais limpo.
Poluição sonora também já não há.
São Paulo não é mais a mesma, assim como também não são as demais principais cidades do mundo.

Céu de São Paulo limpo, em março de 2020
Impacto ainda maior, de escala global, já se está sentindo com relação à dramática redução das emissões de CO2 para a atmosfera, como resultado da redução da queima de carvão e derivados de petróleo, nas últimas semanas. O mesmo foi verificado para as emissões de NO2, dióxido de nitrogênio, e CO, monóxido de carbono, gases extremamente nocivos, emitidos por veículos a combustão, responsáveis por dezenas de milhares de mortes todos os anos, globalmente, cujas reduções foram ainda maiores nas últimas semanas, em especial na China, mas também na Itália e outras regiões da Europa onde o regime de quarentena geral foi implementado.

Especialistas já apontam para a real possibilidade, mesmo após a retomada do funcionamento normal da sociedade, que deve ocorrer no segundo semestre, de que o mundo consiga em 2020, pela primeira vez, alcançar a meta de redução das emissões em 7,6%, ao longo de um ano, prevista pelo Acordo de Paris de 2015, que propõe metas de reduções ambiciosas para buscar conter os efeitos do aquecimento global.

O mês de janeiro de 2020 já tinha sido registrado como o mais quente da história, na média global, e o mês de fevereiro de 2020, o segundo mais quente da história, segundo a NOAA – Agência Estadunidense para os Oceanos e Atmosfera. Março 2020 não apenas inverterá esta tendência, como são esperadas temperaturas mais amenas, com as menores médias históricas dos últimos anos para o mês. Ou seja, involuntariamente, estamos efetivamente colaborando para a diminuição dos efeitos nocivos do aquecimento global do planeta.

2 - A forma como nos movemos nas cidades importa

Todos os anos, mais 1,5 milhão de pessoas morrem em acidentes de trânsito em todo o mundo, segundo a OMS. O Brasil, com mais de 35 mil mortes por ano, é 5º no mundo número de mortes no trânsito. Em se considerando apenas os casos de mortes de motociclistas, o país passa a 2º no mundo, tendo a cidade de São Paulo como líder mundial em número de motociclistas mortos todos os anos em suas ruas.

Estes índices, por força da quarentena à qual estamos submetidos, já caíram abruptamente em todo o país e não gostaríamos que eles retornassem aos níveis anteriores, inclusive por que o contingente de acidentados no trânsito (número muito maior do que de mortos) ocupa boa parte das redes públicas e privadas de saúde, que poderá ser dirigida para atender a outros pacientes, inclusive aqueles com a Covid-19. A relação é direta: menos trânsito, menos poluição, menos mortes.

De posse destas informações (emissões de CO2 e NO2 e mortes no trânsito), se somarmos o fato de que muita gente passou a trabalhar em home office (empresas inteiras, em todo o mundo), me parece claro que o nosso modo de vida anterior não deve mais ser retomado.

3 - Cidades Inteligentes e Sustentáveis são melhores

Temos que garantir serviços de transporte público de qualidade e desestimular o uso do automóvel como meio de transporte preponderante. Pequenos deslocamentos a pé no próprio bairro ou via transporte público ou serviços compartilhados de transportes para outras partes, além de mais recomendáveis para a saúde do indivíduo e da comunidade, são também para a saúde do planeta, na medida em que colabora de forma eficaz para a redução das emissões de CO2, como estamos vendo ocorrer na prática nestas últimas semanas.

Está provado que cidades mais adensadas, com boa oferta de comércio e serviços, boa infraestrutura de transporte públicos, com segurança e espaços públicos de qualidade, são mais agradáveis, mais humanas, mais sustentáveis e provocam menores impactos ao meio do que outras de foram planejadas prevendo o uso intensivo do automóvel.

Como ilustração do conceito, um trabalho realizado pelo WRI com o Banco Mundial apresenta uma interessante comparação entre os casos de Barcelona e Atlanta. Ambas têm número de habitantes semelhantes, mas densidades e modos de transporte predominantes muito diferentes. A maioria dos moradores de Atlanta usa carros particulares, enquanto os de Barcelona usam principalmente o transporte coletivo e caminham. Parte do resultado é que Atlanta tem 18 vezes mais mortes de trânsito em média, do que Barcelona, todos os anos.


4 - Construções Sustentáveis e Saudáveis são necessárias

Escritório central da Hyatt Hotéis, em Chicago, cujos 11
andares são certificados LEED Platinum e WELL Gold.
Foto: Visita técnica realizada durante a Missão Técnica
GreenBuild Chicago 2018, organizada pela EcoBuilding
Consultoria e ArqTours . 
Passamos a maior parte das nossas vidas (90% do tempo) em ambientes construídos. Os espaços onde moramos, trabalhamos, estudamos, nos divertimos e socializamos impactam de maneira profunda a nossa saúde, bem estar e qualidade de vida.
Nossas edificações precisam estar capacitadas para atuar, ativa e positivamente, na promoção da saúde e qualidade de vida dos seus ocupantes e comunidades onde se encontrem.

Sede da Delos, empresa que liderou as pesquisas 
que levaram ao desenvolvimento da certificação 
WELL Building Standard para empreendimentos saudáveis.
O empreendimento é certificado LEED e WELL Platinum.
Fotos: Visitas técnicas realizadas durante Missão Técnica 
WELL Experience Tour Nova York, promovida pela 
EcoBuilding Consultoria e ArqTours, em Novembro 2018.
Os chamados “Empreendimentos Saudáveis” (que vão além das questões já bem conhecidas da sustentabilidade, que se baseiam nos pilares econômico, ambiental e social), trazem as pessoas para centro das tomadas de decisão no projeto, construção e operação dos espaços construídos, com o objetivo de criar ambientes mais salubres, agradáveis e confortáveis para as pessoas, para viverem com saúde e mais qualidade de vida.

Empreendimentos sustentáveis e saudáveis devem ser o novo “normal”. Políticas, normas, certifcações e programas de incentivo que promovam ações neste sentido, devem ser desenvolvidos, implementados e estimulados.

5 - É hora de repensar

Estamos diante de uma oportunidade, inédita e valiosa, de repensarmos o nosso modo de vida, nossos hábitos, a forma como vivemos em sociedade, e como nossas sociedades se relacionam entre si, globalmente.

Temos oportunidade, aprendendo com lições como estas, de recomeçarmos, de uma nova forma, mais humana, mais leve, mais sustentável e mais saudável.

Estamos, quero crer, no começo de uma nova era.

E nós, profissionais do design, arquitetura, urbanismo, construção e operação de edifícios, temos o importante papel, do qual não devemos e não iremos escapar, de criar um mundo melhor para as futuras gerações.

terça-feira, 17 de março de 2020

Empreendimentos Saudáveis podem ser poderosos aliados na luta contra o Coronavírus (e outros agentes patógenos)

Por Antonio Macedo Filho
LEED AP / WELL AP / DGNB Consultant
Março 2020


Estamos vivenciando neste primeiro trimestre de 2020 algo que, muito provavelmente, a história irá registrar como o 1o evento em que a noção de Humanidade pôde ser efetivamente percebida, globalmente. Algo que foi capaz de, pela primeira vez, unir todo o planeta, todos os povos, por um objetivo comum. Fronteiras perderam o sentido, assim como conceitos elementares, como o que é ser desenvolvido ou em desenvolvimento, rico ou pobre, famoso ou anônimo, preto, branco, vermelho ou amarelo. Todos somos iguais. Algo tem que ser aprendido a partir disto.

Quando tiver passado o pior desta batalha, que fique a lição de que o que realmente importa, afinal, somos nós, as pessoas, como vivemos, como nos relacionamos em sociedade e com os próximos, e como podemos garantir segurança, saúde e qualidade de vida para todos, agora e, de forma definitiva, para as futuras gerações.

Compartilho neste breve artigo informações que podem ser úteis para compreender como nós, profissionais do setor de design, arquitetura, construção e operação de edifícios, podemos contribuir de maneira mais direta, agora e no futuro, para o combate à transmissão de doenças como a COVID-19.


Empreendimentos Saudáveis podem ser poderosos aliados na luta contra o Coronavírus (e outros agentes patógenos)

Passamos a maior parte das nossas vidas (90% do tempo) em ambientes construídos. Os espaços onde moramos, trabalhamos, estudamos, nos divertimos e socializamos impactam de maneira profunda a nossa saúde, bem estar e qualidade de vida.

Edifícios podem ajudar a propagar doenças e até mesmo provocar uma grande variedade de enfermidades, tanto físicas quanto psicológicas. A boa notícia é que, com os avanços da ciência, os espaços construídos agora também podem atuar, ativa e positivamente, na promoção da saúde e qualidade de vida dos seus ocupantes e comunidades onde se encontrem.

Terraço no escritório de arquitetura CookFox, Nova York.
Certificado WELL Gold
Os chamados “Empreendimentos Saudáveis” (que vão além das questões já bem conhecidas da sustentabilidade, que se baseiam nos pilares econômico, ambiental e social), trazem as pessoas para centro das tomadas de decisão no projeto, construção e operação dos espaços construídos, com o objetivo de criar ambientes mais salubres, agradáveis e confortáveis para as pessoas, para viverem com saúde e mais qualidade de vida.

Sede da Delos, empresa que liderou as pesquisas que
deram origem à certificação WELL, em Nova York.
Empreendimento certificada LEED e WELL Platinum
(Visita realizada durante a missão técnica
WELL Experience Tour, promovida pela EcoBuilding /
ArqTours - 2018)
Recentemente, a partir de 2014, em resposta a demandas por mais qualidade de vida, em especial nos espaços de trabalho (parte de um movimento mais amplo, o chamado “Movimento Wellness”), surgiram, nos EUA, ferramentas que constituem eficazes instrumentos para aferir, por meio de indicadores precisos, o nível de desempenho e a qualidade dos espaços, em função do bem que fazem para as pessoas e a qualidade de vida destas. São sistemas de certificação para identificação e desenvolvimento de empreendimentos saudáveis.

O WELL Building Standard, promovido pelo IWBI – International WellBuilding Institute, foi desenvolvido a partir de pesquisas baseadas em evidências que exploram as inter-conexões entre as ciências da construção, da saúde e comportamentais, e fornece uma ferramenta poderosa e eficaz para designers, engenheiros, construtores, operadores e proprietários de edifícios criarem e manterem ambientes que promovam a saúde, o conforto e bem estar das pessoas nos espaços construídos, de diferentes tipologias e usos.

Empreendimentos WELL e o Coronavírus

Em tempos pandemia viral, com a perda de milhares de vidas, quarentenas e severas restrições aos deslocamentos e reuniões de pessoas em escala global, com prejuízos ainda imensuáveis, resultados da rápida expansão das contaminações pelo novo Coronavírus, torna-se especialmente relevante a divulgação das ações e estratégias como as previstas no sistema WELL que podem especificamente contribuir para prevenir e combater a propagação de doenças virais como a COVID-19, tais como:

1. Categoria Ar

·       Recurso A03 - Eficácia da ventilação
Resolver problemas de qualidade do ar interno através do fornecimento de ventilação adequada.

·       Recurso A06 - Ventilação aprimorada
Expulsar poluentes gerados internamente e melhorar a qualidade do ar na zona respiratória através de um aumento fornecimento de ar externo ou aumento da eficiência da ventilação.

·       Recurso A07 - Janelas Operáveis
Aumento do suprimento de ar externo de alta qualidade e promoção de conexão com o ambiente externo, por meio do incentivo aos usuários para abrir janelas, sempre que a qualidade do ar externo seja aceitável.

·       Recurso A11 - Separação de fontes
Preservar a qualidade do ar interno e maximizar o conforto olfativo em espaços ocupados, através do isolamento e ventilação adequada de eventuais fontes de poluição interna e áreas de armazenamento de produtos químicos e de limpeza.

·       Recurso A12 – Filtragem do ar
Redução de contaminantes transportados por via aérea, internos e externos, através de eficaz filtragem do ar e contínuo monitoramento.

·       Recurso A 14 - Controle de micróbios e umidade
Redução do desenvolvimento de fungos e bactérias através do gerenciamento da umidade do ar e condensação e redução dos níveis de micróbios dentro de espaços ocupados.

2. Categoria Água

·       Recurso W08 - Lavagem das mãos
Este recurso WELL requer a instalação de pias suficientemente grandes, recipientes descartáveis ​​para sabão e toalhas de papel descartáveis para uma lavagem eficaz das mãos, com água e sabão, e secagem, para reduzir o risco da transmissão de patógenos.

·       Recurso W02 - Contaminantes da água
Oferta de acesso fácil e amplo à água potável, com qualidade que cumpra os mais rigososos limites de contaminantes dos órgãos de saúde.

·       Recurso W05 - Consistência da qualidade da água
Monitoramento e manutenção consistente da alta qualidade da água potável servida aos ocupantes.

3. Categoria Materiais

·       Recurso X09 - Protocolos de produtos de limpeza
Redução da exposição a patógenos, alérgenos e produtos químicos de limpeza perigosos.

4. Categoria Alimentação

·       Recurso N01 - Frutas e Legumes
Promoção do consumo de frutas e legumes, tornando as frutas e legumes facilmente acessíveis

·       Recurso N10 - Produção de Alimentos
Oferecimento de espaços e instalações de apoio para a adequada preparação de refeições no local.

5. Categoria Movimento

·       Recurso V06 - Oportunidades de atividade física
Incentivo à atividade física regular e exercícios, por meio da oferta de oportunidades gratuitas de atividade física e de informações a respeito.

6. Categoria Luz

·       Recurso L01 – Exposição à luz e educação
Promoção do acesso à luz do dia e oferta de informação a respeito.

7. Categoria Mente

·       Recurso M11 - Suporte ao sono
Apoio à incorporação de hábitos de sono saudáveis, restauradores e consistentes entre os ocupantes.

Tais medidas fazem parte de uma relação com mais de 100 recursos disponíveis no sistema de certificação WELL, para a promoção da qualidade de vida das pessoas nos ambientes construídos. Para a certificação, a adoção de uma parte destes recursos é obrigatória, e a aplicação de recursos facultativos garante níveis superiores de desempenho ambiental e, consequentemente, a conquista de níveis mais elevados de certficação.

Todas as estratégias implementadas devem ser verificadas por meio de medições in loco, realizadas por auditores do IWBI. A manutenção da certificação requer uma revisão periódica dos desempenhos ambientais, a cada três anos, de forma que os gestores e apoiadores se mantenham consistentes na aplicação das medidas implementadas e busquem a incorporação de melhorias, continuadamente.

Desta forma, empreendimentos saudáveis podem seguir promovendo a saúde e qualidade de vida das pessoas, de forma continuada ao longo de toda a sua vida útil e assim, melhor prevenir e minimizar os efeitos de situações como a que estamos vivenciando neste início de 2020, com a deflagração da pandemia provocada pelo Coronavívus, com graves consequências, em diversos setores, em escala global.

Edifícios podem ajudar de maneira efetiva, assim como os profissionais envolvidos no projeto, construção e operação destes empreendimentos e isto deve ser estimulado.

Mas, medidas e estratégias por mais bem planejadas e implementadas que sejam, sempre dependerão do mais importante agente que é, e sempre será, o elemento humano. São as pessoas que, informadas, bem orientadas e motivadas, fazem a verdadeira diferença. 

Façamos nossa parte e lideremos pelo bom exemplo.

Antonio Macedo Filho
amacedo@ecobuilding.com.br


segunda-feira, 16 de março de 2020

Movimento Wellness: A vez das pessoas.

Por Antonio Macedo Filho, LEED AP / WELL AP / DGNB Consultant
Adaptado a partir de artigos de Gloria Gibbons, Global Practice Leader na Ogilvy Health & Wellness (Reino Unido) e de Barbara Bigarelli, jornalista do Valor Econômico (São Paulo)
Novembro 2019

O estresse mata


Já se sabe hoje que períodos contínuos e regulares de estresse, combinados com um estilo de vida sedentário, podem de fato provocar morte precoce. Um trabalho publicado por Elizabeth Blackburn e Elissa Epel comenta que o chamado ‘efeito telômero’ (extremidade protetora de seus cromossomos), cujo encurtamento leva a doenças cardíacas, cânceres e enfraquecimento do sistema imunológico, está relacionado com o aumento do estresse e estilo de vida sedentário.

Em maio de 2019, o esgotamento profissional, conhecido como “Síndrome de Burnout”, foi incluído na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS). A lista é baseada nas conclusões de especialistas de todo o mundo e utilizada para estabelecer tendências e estatísticas de saúde.

A síndrome de burnout, ou de esgotamento profissional, está sendo chamada de “Mal do Século”.
Fonte: Ministério da Saúde
Segundo pesquisa da ISMA-BR (representante brasileiro da International Stress Management Association), 72% dos brasileiros que estão no mercado de trabalho sofrem alguma sequela associada ao estresse. Deste total, 32% sofrem da Síndrome de Burnout e 92% destas pessoas continuariam trabalhando. Segundo a psicóloga e presidente da ISMA-BR, Ana Maria Rossi, “um trabalhador neste estado está muito mais propenso a cometer erros graves”.

Trata-se de um problema que, para além da importância que já toma em relação à saúde pública, tem sido relacionado a prejuízos multimilionários para empresas do mundo inteiro. As questões relacionadas ao bem-estar das pessoas, em especial nos ambientes de trabalho, já deixaram de ser, para o mundo corporativo, uma coisa desejável, para ser algo necessário, fundamental mesmo para a sobrevivência das empresas hoje e no futuro.

A vez das pessoas

Empresas de todo o mundo, de diferentes tamanhos, em especial as maiores, já têm adotado estratégias e boas práticas de sustentabilidade, com os seus ganhos de eficiência, de funcionalidade e redução de impactos ambientais, em muitos casos de maneira consistente em suas diretrizes corporativas. Agora, entendem que os seus esforços devem dirigidos à valorização das pessoas, na promoção da saúde, conforto, bem-estar e qualidade de vida. É o chamado “Movimento Wellness”.

Trata-se de um setor que tem muitas ramificações, em diferentes áreas de negócios, que foi avaliado em US$ 3,7 trilhões de dólares, no mundo, somente em 2016, crescendo mais de 10% ao ano.

Os conceitos defendidos pelo Movimento Wellness tem levado para as mesas de reuniões de muitas empresas questões como: a qualidade do ar, da água e da comida servidas aos funcionários, a oferta de programas de incentivo à atividade física, a flexibilidade de horários e locais de trabalho, a oferta de espaços de convívio e relaxamento, dentre outras estratégias que, em conjunto, visam promover a saúde, o conforto e o bem estar das pessoas nos ambientes de trabalho.

Segundo matéria publicada no jornal Valor Econômico em 23/08/2019, citando estudo realizado com 1,6 mil funcionários de empresas dos Estados Unidos, “os esforços das empresas não têm sido suficientes para promover o bem-estar dos funcionários, a despeito dos investimentos crescentes em academias, ergonomia e opções de alimentação mais saudáveis”, disse Jeanne Meister, sócia da Future Workplace, empresa que realizou a pesquisa em parceria com a View.

“São os fatores aparentemente invisíveis, como qualidade do ar e luz natural, que mais influenciam o bem-estar, a produtividade dos funcionários e, acima de tudo, a qualidade da experiência das pessoas nos escritórios”.

Apenas 1 de cada 4 entrevistados afirmou que a qualidade do ar de seu escritório é adequada para se realizar seu melhor trabalho e metade deles afirmaram que a má qualidade do ar no ambiente interno os deixa mais sonolentos.

Mais do que isso: quase um terço deles apontou sofrer com olhos lacrimejando ou irritação na garganta no trabalho. Para 85% deles, o ar que respiram em suas casas ou na rua é melhor do que o do escritório.

Com relação à temperatura, apenas um em cada três funcionários disse que a temperatura do ar de seus escritórios é ideal e um terço disse que trabalha, hora com ar quente demais, hora frio demais. Metade deles gostaria que suas empresas projetassem ambientes que resolvessem esse dilema.

Sobre a luz dos escritórios, grande parte dos entrevistados indicou que é comum ter sua visão bloqueada por persianas ou cortinas e um terço disse que a intensidade e coloração da luz a que têm acesso é importante para seu bem-estar.

Outro fator analisado pela pesquisa foi a acústica. Metade dos entrevistados afirmou se distrair com a conversa alheia e mais de um terço deles afirmaram que o barulho de telefones, da digitação nos teclados e dos sistemas de refrigeração do ar atrapalham sua concentração. Para 37% deles, as empresas deveriam criar um ambiente mais silencioso.

Atratividade, retenção de talentos e ganhos de produtividade

O estudo indica que pensar no bem-estar é também uma questão de atração e retenção de talentos. Para 67% dos entrevistados, a produtividade e o engajamento aumentam em ambientes que contam com fatores que promovem o bem-estar físico e emocional.

Mais de dois terços dos entrevistados (67%) afirmaram que trabalhar em um ambiente que contribui para seu bem-estar e saúde os faz considerar aceitar uma oferta de trabalho e 69% disseram que este é um fator que os leva a permanecer no emprego.

Estes índices chegam à quase totalidade dos casos quando se trata dos chamados “millenials”, jovens profissionais, nascidos nos anos 90 e crescidos já na era digital. Para estes, a busca da felicidade e bem-estar é crucial, com nível de importância inclusive superior ao sucesso financeiro.

São jovens que representam boa parte da massa de trabalho e que começam a assumir posições de liderança em muitas empresas. Com formatos e ambientes de trabalho mais dinâmicos e flexíveis, produtividade passou a ser a palavra-chave. E isto pode fazer, de fato, toda a diferença.

Os investimentos em bem-estar se justificam, sob o aspecto financeiro, quando se compara o aumento de produtividade das pessoas nos seus trabalhos (mesmo que seja de poucos pontos percentuais), com os custos destas pessoas para as empresas ao longo do tempo.

São custos que podem alcançar cifras multimilionárias, em muitos casos, incluindo-se aqueles relacionados aos custos diretos das empresas com planos de saúde de seus funcionários. As empresas estão percebendo que investir em qualidade de vida das pessoas é um bom negócio.

Vale muito mais a pena investir em saúde e bem-estar das pessoas (o que se refletirá em ganhos de produtividade), do que planos de saúde e atendimentos médicos.

Como implementar o Wellness nos ambientes

Algumas questões que surgem nas reuniões para discussão destes assuntos são, por exemplo: O que fazer? Quais estratégias propor? Quais darão melhores resultados? Como estimar e medir estes resultados? Como vamos justificar os investimentos?

Para dar respostas precisas a questões como estas e orientar as empresas na implantação e no contínuo aperfeiçoamento de estratégias de bem-estar para as pessoas, foi criada nos EUA, em 2014, a certificação WELL.

Trata-se de uma ferramenta a ser usada para efetivamente se obter indicadores mensuráveis para aferir os impactos que os espaços construídos têm sobre o corpo humano, sobre nossa saúde, comportamento e capacidade de realizar trabalho ou se relacionar com outros.

Empreendimentos ou espaços certificados WELL são aqueles que comprovadamente foram projetados, construídos e são mantidos de forma a promoverem a saúde, a felicidade, o bem-estar e a produtividade dos seus usuários.

O International Well Building Institute, entidade que promove o WELL Building Standard, baseada em Nova York, tem observado crescimento exponencial da aplicação da certificação, atingindo, em agosto de 2019, 58 países ao redor do mundo, inclusive o Brasil.

O processo prevê uma abordagem holística de aspectos relacionados a assuntos como a qualidade do ar, da água, da alimentação, o nível de conforto (térmico, acústico, luminoso, ergonômico), a qualidade dos materiais, o incentivo à atividade física e implantação de políticas de gestão de pessoas mais inclusivas, transparentes, participativas e integradas entre si.

São medidas que devem ser consideradas nos projetos, na execução e na operação dos espaços certificados e podem ser implementadas tanto em instalações novas, a serem construídas, ou mesmo já existentes, uma vez sejam capazes de atender aos critérios mínimos de certificação.

Os resultados da busca e conquista da certificação WELL, com a visibilidade e credibilidade que ela traz, tem sido tão bons que muitas empresas, de diferentes portes, têm passado a adotá-la de forma sistemática em suas políticas de gestão dos espaços de trabalho, em todo o mundo.

Este ano foi inclusive lançada uma nova versão do sistema para dar ainda mais impulso a estas iniciativas, chamada WELL Portfolio, voltada para empresas que adotem o WELL Building Standard em um conjunto de instalações de uma só vez, mesmo que estas estejam em países diferentes, de maneira coordenada e com esforços otimizados, desde que atendam a um conjunto de critérios de desempenho que possam ser implementados, medidos e validados no processo de certificação.

É, de fato, uma ferramenta poderosa e que faz todo o sentido, não apenas para as próprias pessoas, mas também para as empresas, que desta forma podem comprovar e validar, por meio de medidas práticas e com indicadores precisos, a adoção de estratégias de Wellness, em suas instalações.

Estamos diante de uma nova era. A era da valorização das pessoas.

Nas palavras do Sr. Rick Fedrizzi, fundador e CEO por mais de 16 anos do U.S. Green Building Council, entidade criou a certificação de empreendimentos sustentáveis LEED, mais utilizada em todo o mundo para identificar Green Buildings, e que desde 2016 é CEO do IWBI (International Well Building Institute), entidade que promove o WELL, “estamos falando da 2ª onda da sustentabilidade, o próximo passo que todos devemos dar”.

Para saber mais:

Avaliações de desempenho e consultorias técnicas WELL:
EcoBuilding Consultoria: 11 2218 0277 / contato@ecobuilding.com.br


Missão Técnica WELL Experience Tour Nova York:
ArqTours, by Raquel Palhares: 11 99285 4554 / raquel@arqtours.com.br